Ameaças

As aves necrófagas enfrentam, atualmente, diversas ameaças que podem colocar em risco a sua existência ou mesmo levar à sua extinção. Conhecer quais são essas ameaças é o primeiro passo para agir em defesa destas espécies. 
 
Diminuição da disponibilidade alimentar

 

A escassez de alimento para as aves necrófagas pode levar à diminuição da produtividade das espécies e a decréscimos populacionais, assim como ao aparecimento de doenças nestas aves.

Gradualmente, as práticas agropecuárias tradicionais foram diminuindo em Portugal, o que levou a uma redução dos cadáveres disponíveis na Natureza que servem de alimento às aves necrófagas. Além disso, outras espécies como pequenos ruminantes, asininos e muares também se encontram em declínio, o que vem a agravar a falta de alimento para as aves necrófagas.

Também a melhoria do estado sanitário dos animais e a regulamentação higio-sanitária da atividade pecuária contribuiu para a falta de alimento disponível. Depois da chamada crise das “vacas loucas”, foram aplicadas uma série de normas de recolha, transporte e eliminação dos subprodutos animais, o que reduziu bastante a disponibilidade de cadáveres procedentes da atividade pecuária.

Para responder a este problema, foram promovidas algumas iniciativas para a instalação de campos de alimentação para aves necrófagas em Portugal. No entanto, estes campos sempre tiveram um funcionamento limitado, uma vez que a comida não era fornecida regularmente, tendo os resultados da recuperação das aves sido bastante fracos.

Devido à falta de alimento, as populações de abutres poderão começar a apresentar alguns comportamentos menos usuais, como tentar alimentarem-se de ungulados doméstico frágeis e/ou doentes ainda vivos. Estas situações podem gerar um sentimento negativo por parte da sociedade em relação às aves necrófagas, visto que a comunidade pode ser afetada pelas consequências destes incidentes.

Mortalidade por envenenamento/intoxicação

 

O envenenamento das aves necrófagas é, essencialmente, um resultado indireto de envenenamentos dirigidos a outras espécies.

A principal motivação para o uso de venenos é a eliminação de animais considerados nocivos. Os predadores das espécies cinegéticas e pecuárias são as espécies alvo do uso de venenos, estando incluídas neste grupo a raposa, o sacarrabos, o lobo-ibérico, assim como cães e gatos assilvestrados.

O uso de venenos está completamente proibido pelas autoridades nacionais e europeias e é uma prática irresponsável que pode ter consequências muito graves para a saúde pública e para a biodiversidade.

O envenenamento é um fenómeno que atinge, de forma significativa, não só as populações existentes de aves, mas também a sua produtividade. O impacto do uso de venenos é bastante significativo, uma vez que um cadáver envenenado pode provocar a mortalidade de várias aves, ocorrendo assim um envenenamento em massa.

O Programa Antídoto, que é uma plataforma nacional que combate o uso indevido de venenos, registou 140 mortes de aves necrófagas por ingestão de venenos entre 1992 e 2014. Os casos de envenenamento identificados e registados corresponderão a uma percentagem reduzida dos envenenamentos realmente ocorridos, supondo-se que essa causa de mortalidade tenha uma incidência muito elevada.

As aves são ainda suscetíveis à intoxicação por chumbo, devido à ingestão de fragmentos de balas usadas na caça. São conhecidos os efeitos da intoxicação por chumbo nas aves aquáticas e em algumas aves de rapina com hábitos necrófagos, pelo que esta deve ser também assumida como uma ameaça para as aves necrófagas.

Mortalidade em linhas elétricas

 

A interação das aves necrófagas com infraestruturas como linhas elétricas constitui outro fator de mortalidade que contribui para a redução das populações das aves necrófagas. Esta causa de mortalidade tem uma relevância acrescida para o abutre-preto, milhafre-real, águia-imperial e britango, que apresentam populações reprodutoras muito reduzidas.

Mortalidade em parques eólicos

 

Uma das estruturas humanas que mais se afigura perigosa para as aves necrófagas são os aerogeradores dos parques eólicos. Uma parte significativa dos parques existentes atualmente não coincide com as principais áreas de distribuição das espécies de aves necrófagas. No entanto, na região Barlavento Algarvio, o risco de colisão com este tipo de estruturas é bastante elevado. Anualmente, milhares de aves planam sobre a zona de Sagres, na tentativa de chegarem às áreas de invernada e/ou áreas de assentamento durante a dispersão juvenil.

Dados já conhecidos sobre a mortalidade de aves nos parques eólicos do Barlavento Algarvio apontam para a colisão de 29 grifos, entre 2007 e 2013, durante a migração outonal. Estes registos são resultado de observações feitas de forma não sistemática e, portanto, pensa-se que o número de colisões seja superior ao registado. Isto porque, para além de não haver um seguimento contínuo da mortalidade de aves em vários parques, é de prever que terá havido cadáveres que não foram descobertos ou aves feridas que ainda poderão ter conseguido voar, afastando-se do raio de prospeção de cadáveres.

Para além dos grifos, outras aves necrófagas podem também estar em risco de sofrer colisão com aerogeradores por passarem, muitas vezes, perto destes, quer seja pelo seu comportamento típico de voo ou porque algumas dessas aves voam juntamente com bandos de grifos.

 

Mortalidade por perseguição direta a tiro (abate e captura ilegal de espécies)

 

A mortalidade por perseguição direta, mais concretamente através do abate a tiro de algumas espécies, é outra das ameaças às aves necrófagas, em particular à águia-real e à águia-imperial-ibérica. Segundo dados provenientes de centros de recuperação de fauna selvagem, cerca de 11% das aves que deram entrada nesses locais foram alvo de abate a tiro.

Muitas vezes, o que leva a estes atos é a falsa noção de que as águias “roubam” as espécies de caça, no entanto, é sabido que elas contribuem para uma gestão sustentável das populações selvagens de lagomorfos (coelhos e lebres), eliminando os indivíduos mais fracos e doentes, não permitindo, assim, que as doenças se propaguem pela população. Estas aves, por norma, caçam os animais mais débeis que se encontram na Natureza. Portanto, essas aves, que são predadores de topo, ao serem retiradas da cadeia alimentar, deixam de cumprir a sua função de controlar os indivíduos mais debilitados das populações.

Outro problema identificado é a comercialização destas aves como animais domésticos. Muitas vezes, estas espécies são traficadas através do roubo de ovos diretamente dos ninhos ou de indivíduos já nascidos que se encontram no habitat natural. Esta prática faz com que os indivíduos mais velhos, quando morrem, não sejam substituídos por animais mais jovens.

Perturbação causada por atividades antrópicas

 

A perturbação decorrente de atividades humanas não controladas, designadamente a atividade florestal e atividades de lazer como a escalada, passeios pedestres e fotografia de Natureza, navegação em rios ou desportos aquáticos, interfere negativamente no sucesso reprodutor dos abutres, diminuindo a sua produtividade. A existência de perturbação pode condicionar a ocupação de áreas potenciais para a nidificação das diferentes espécies. As espécies mais afetadas por este problema são o abutre-preto e o britango.

Limitação da disponibilidade de locais de nidificação

 

A redução da disponibilidade e degradação do habitat de nidificação das espécies rupícolas por construção de infraestruturas, nomeadamente barragens, parques eólicos e estradas e, no caso do abutre-preto, a ocorrência de incêndios e indisponibilidade de substratos adequados para a instalação de ninhos, são outros fatores que afetam negativamente o estado de conservação das aves necrófagas.

Falta de sensibilização e conhecimento

 

A falta de sensibilização e conhecimento da sociedade para a importância e conservação das aves necrófagas potencia a ocorrência de ameaças e resulta numa falta de interesse dos cidadãos e entidades pela preservação destas espécies e dos seus habitats.

Qualquer pessoa pode ter um papel fundamental para diminuir a falta de sensibilização e conhecimento da problemática do declínio das aves necrófagas em Portugal, através da educação acerca da importância da preservação das aves necrófagas e posterior divulgação dessa informação.

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